ADELMARIO SAMPAIO

 

"Lago Comary". Petrópolis. BRASIL.

 

 

 

Sou um mistério pra mim mesmo.
Tenho um coração um pouco diferente,
que não sabe falar nada de si... Quando tento, fala de um outro mundo.
Tanto, que o que tenho publicado, é uma ínfima parte
do que escrevi como diário durante muitos anos,
em uns cadernos que guardei, com vergonha de mostrar.

Não sei dizer quem sou, porque sou o que sou, e não o que faço.
O que faço, é uma função, e pode ser mudada,
como mudou mil vezes em minha vida.
Sou o que fui antes de nascer, e continuarei sendo
para sempre, se existir esse sempre.

Hoje poderia dizer por exemplo, que sou um poeta, um escritor...
Mas não digo, porque todos iriam confundir o que faço com o que sou.
E no entanto, faço porque sou, e não o contrário.
E tenham certeza, que nesse momento que escrevo estas palavras,
me emociono, porque sinto um nó aqui no peito,
por conta dessa agonia que dá, de querer que conheçam do que falo.
E é do que falo, que quero que conheçam.
Tenho tanto em meu coração, que acho um desperdício
que as pessoas gastem tempo lendo minha biografia, ou vendo minha foto.

Uso uma figura: Sou como um baú disforme, cheio de jóias.
Abrem-me, e pensam que são bijuterias...
Mas tenho esperança de que alguns percebam o que existe por trás das palavras...

 

Mi correo

 

A PRIMEIRA PAIXÃO


Cavalgar em dorso nu como primeiro
Agarrado à sua sina esvoaçante
Pensamento ao vento norte e ligeiro
Os seus cascos no meu peito chamejante

Dominando seus instintos do meu jeito
Pra ficar mais agarrado aos seus cabelos
Nossos vultos como raio incandescente
E a leveza dos seus zelos nos meus pelos

Por tão rara essa cena iniciante
Agarrei-me à minha gueixa como selo
Esperando que de mero visitante
Eu habite esta lida por inteiro

Adelmario Sampaio

 

 

ESPERANDO VOCÊ

uma alegria insana
na eufórica mente
(eu já esperando você)
o sol ainda nascente

por volta do meio dia
ainda como em sonho
(eu esperando você)
naquele calor medonho

a tarde tentando manter
a mesma ilusão infante
(ainda esperava você)
o sol já noutro horizonte

na noite já desabando
angústia nessa insônia
(ainda sem entender)
os olhos molhando a fronha


Adelmario Sampaio

 

 

QUEM SOU?

Angustio de pensar-me como um vento que passa.
Por isso, essa autocomiseração...
e tento agarrar fragmentos enquanto despedaço...

... e olho a quietude dos meus movimentos,
e nesse ato, derrubo casas e templos.
E caem também, as estrelas do meu pensamento.

Pensei de mim uma seta,
passei com sofrimento.
Pensei que sou estático,
e vi-me em movimento.
Pensei que sou quem sou,
e proferi um lamento...

E vi em mim um engano,
um descontentamento.
Gritei por todos os cantos,
gritos por fora e por dentro.

Quem sou, afinal quem sou?
Tire-me esse tormento...

Adelmario Sampaio

 

OS AMANTES DO SILÊNCIO

Mil anos depois, nos entendemos sem falar...

Então olhei a minha amada, e no silêncio do meu coração, eu disse-lhe:

Eis Amada, os ares mais puros, que pairam acima da Terra...E o som do nosso respirar, entrelaçado nesse elo de amor, acima das montanhas...

E olhei a minha amada, e no seu silêncio ouvi resposta:

Voemos Amado,

e sobrevoemos a Montanha Alta, e de lá, veremos antes de todos, a luz do Sol da Justiça...

...E para nós será dia, enquanto noite para os outros ainda...

...E anunciaremos a todos os que dormem, que o dia esperado chegou, e veremos maravilhados que muitos acordarão, e serão alados como nós, e voarão as mesmas alturas, e contemplarão o mesmo Sol...

E em silêncio ouvi, e levantei os olhos ao Sol...

...e o Sol também falou-me com o seu olhar quente e silencioso a sorrir-me, e eu correspondi...

E ainda em silêncio, olhei novamente a minha amada, e ela também sorriu, como quem sabe o que se passa no silêncio do coração...

Então subimos...

Em silêncio...

 

Adelmario Sampaio

 

 

 

LUA MENSTRUADA

vermelha como teu nome

desculpas em fase de lua

que sangra teu coração

e tem das mazelas tuas

o tempo esvai-se e some

distante desse refrão

fluindo sofreguidão

suplício aborto atura

a fêmea d'outra história

é o tempo que a depura

paciente espera da hora

que a lua perca o vermelho

abaixo a negra vidraça

nervosa fase que passa

 

Adelmario Sampaio

 

PAZ E GUERRA

Recordo esse dia,

meu tempo é de paz...

curso normal do desfecho da vida:

filhos conformados

choram dos pais,

a partida.

Desprezo esse dia

dos tempos de guerra,

escurece nas trevas a vida invertida:

pais em desespero,

chorando dos filhos

a ida...

 

Adelmario Sampaio

 

Mi libro de visitas


¡Envía esta página a tus amigos!

Tu nombre:
Tu e-mail:


E-mail de tu amigo:



.

 

volver